REGISTROS, GENEALOGIAS, HISTÓRIAS E POESIAS...
a fim de preservação da memória de nossos ancestrais
MARILIA GUDOLLE C. GÖTTENS

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Poesia Deuclides Gudolle

À minha Iaiazinha
Que recordações tu me trás da mocidade
Desse tempo longe e tão distante
Eu era uma criança e vivia delirante

E sonhava com esse amor que era verdade
E lembro-me de tudo... não esqueço nada
Nem da velha tâmara que lá havia
E quando a via, de longe já sabia
Que era ali que vivia a minha amada...

E lembro-me ainda quando na salinha
Brincáva-mos escrevendo numa pedra
Perguntando à sorte, se serias minha...

E a sorte não mentiu, hoje estou vendo
E naquela pequenina Iaiazinha
Que na saudade de ti estou revendo...

DELLE Revolução, 1909


Poesia - Deuclides Gudolle


Castelo de Sonhos

Eu também avistei um castelo radiante
Povoado de sonhos, inundado de luz
Onde estava a glória a me acenar avante
Onde vive o saber que o destino conduz..

E deixei-me ficar qual calmo viandante
Que não apressa a chegar, e a divagar me pus
Veio a aurora, o dia, a luz bruxuliante
Veio a noite depois... e eu às trevas me expuz.

E embora eu lute nesta noite densa
Tateando e velho já sem crença
Alcançar procure esse castelo ideal...

E se me fosse dada uma nova jornada
Com que ânsia eu percorreria a estrada
Que conduz ao saber, essa glória imortal..

DELLE - Santa Thereza, 1929






terça-feira, 7 de junho de 2011

Poesias ( Deuclides Gudolle)


A partir desta data, serão postadas inúmeras poesias de meu Avô materno Deuclides Gudolle, as quais jamais foram publicadas, com algumas exceções em jornais, na década de 1930 e 1940 nas cidades de Itaqui, e Passo Fundo. A ortografia será conservada.

Taimbé


Lá na minha risonha mocidade
Cheio de vida, de ventura e fé
Eu também escutei, na realidade
A voz rouca e triste do Taimbé.
Minha vida era linda de verdade
Vivi cantando, descuidado até
Nem pensei que um dia esta saudade
Fosse cantar sombras que o passado é.
Tudo passou com o findar dos dias
Foram-se a mocidade as alegrias
Que esse tempo nos dá, tão desiguais...
Inda canta o Taimbé, na voz tristonha
Como a saudade que cantando sonha
Com a mocidade que não volta mais.

DELLE (Santa Tereza)

domingo, 5 de junho de 2011

Registro de Jean Gudolle junto ao Consulado Francês de Buenos Aires


Este registro nos foi gentilmente cedido pela pesquisadora e historiadora Zelce Mousquer.

Nº de Matrícula (junto ao Consulado): 4194
Sobrenome e data do Rregistro no Consulado: Gudolle - 14 de Outubro de 1844
Nome: Jean
Lugar de Nascimento: Lescurry, Cantão de Rabasténs (Departamento dos Hautées Pyrénées Midi Pyrénées)
Data de Nascimento: 1824
Estado Civil: Solteiro
Profissão: Jardineiro
Procedência: Chegado de Montevidéo
Último domicílio na França: Tarbes (capital do Departamento dos Hautes Pyrénées)
Características: Cabelos Castanhos
Fronte: Sem particularidades
Olhos: Castanhos
Nariz: Sem particularidades
Boca: Grande
Rosto: Oval
Motivo da Inscrição: Imigrante em Montevidéo nº 6248 (vindo de Montevidéo)
Assinatura:

Arquivo Pessoal de Zelce Mousquer

Ofício e Supostos motivos da vinda de Jean Gudolle para o Brasil

Na correspondencia passiva de meu Trisavô Jean Gudolle, este aparece como "metayer chez la Baronne de Saint-Pastou", meeiro (agricultor que ficava com a metade de sua produção, a outra para o proprietário) da Baronesa de Saint-Pastou (sobrenome gaúcho, mas os trabalhadores adotavam o nome dos patrões, pois os sem nobreza não tinham sobrenome, o que somente começou com Napoleão, quando foram adotados vários tipos de sobrenome, como o lugar de origem, a profissão, animais, etc...). Não foi encontrada a etimologia de "Gudolle".

As cartas para Jean Gudolle dizem que ele saiu do sul da França por ter brigado com um irmão. Sua mãe ao escrever, lhe disse que voltasse e se reconcilia-se; o que valia mais que "todas as piastras da América". Contudo, ele faz parte de uma grande emigração dessa região nos anos de 1840, ocasionada pela praga do "mildiu"e pelas grandes alterações sociais que passava a Europa de então, com a industrialização e o excesso de operários.

Conforme o ponto de vista de um primo estudioso no assunto, e por demais inteligente, mas que por razões pessoais prefere que seu nome não seja conhecido neste blog, assim comentou comigo em uma ocasião, a respeito de Jean:" Quanto ao nosso genearca, temos duas opções: 1) Ficar ao lado da pequena história, a "petite histoire" dos franceses, e aceitar as fofocas dos estancieiros que o viam como um agiota, para defenderem-se das mudanças sociais e econômicas que ele representava, e interpretar sua morte violenta como consequência de carater brigão e de seu agiotismo, o que nada mais é que uma forma de denegrir o credor, justificar o não pagamento de dívidas e impedir a mudança social".. 2) Ver o Jean dentro da história como um fator de desenvolvimento social e econômico daquela antiquíssima e subdesenvolvida fronteira (chegou lá nos anos de 1840), e ver sua morte como reação dos setores ultraconservadores à mudança social. Ou seja, ficamos com a "petite histoire" da família, ou incluímos o Jean em seu momento histórico. Prefiro esta, mas podemos ficar com as duas."

A decisão de Jean de passar para o muito mais estável Império do Brasil, com certeza foi influenciado pelo fato de el loco Rosas estar confiscando os bens dos imigrantes enriquecidos. Muitos fugiram Montevidéo e nosso Jean que chegou por Buenos Aires.

Os Gudolle se originaram (Jean) do movimento europeu de expulsão do excesso populacional para a América, solução boa para a exportação das contradições internas e da injustiça social que vinha com a concentração de renda e o desemprego originados pela aceleração da industrialização. Sua vinda para o RS, devemos ao Imperador e ao Rosas."

Arquivo pessoal de FCG e Marilia Gudolle C. Göttens

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Jean Gudolle em França

Corria o ano de 1824 em território francês, Departamento dos Hautes Pyrenées/Região Midi Pyrénées, no pequeno povoado de Lescurry, no Cantão de Rabastens. Nessa época, após a queda de Napoleão Bonaparte, os Bourbons reinstalaram-se no trono - Luís XVIII (1814-1824), Carlos X (1824-1830) - apesar de uma singela tentativa de restabelecimento do Império (Os Cem Dias) 1815. O predomínio na sociedade francesa da aristocracia fundiária, fiel às idéias do Antigo Regime, entretanto, provocou a queda de Carlos X (1830) e o advento de uma realeza burguesa. O reinado de Luís Filipe (1830-1848) foi marcado pela supremacia política e econômica da burguesia. A monarquia durou até a abdicação de Luís Filipe (1848). Durante este período, tendo perdido influência na Índia e no Canadá, a França começou a criar um império ultramarino no norte da ÁfricaOs anos que vão desde a insurreição liberal de 1830, representam a idade de ouro da burguesia francesa, anos em que triunfaram os princípios liberais e nacionalistas. Mas a aparência democrática do novo governo desapareceu progressivamente e o regime foi endurecendo, a fim de reprimir a oposição republicana e o crescente mal-estar das classes operárias.Nesse tempo, o crescimento urbano e a industrialização apontaram novas características ao movimento republicano, e a crise econômica de 1846, precipitou a revolução de fevereiro de 1848, que derrotou o governo de Luís Filipe.Lembremo-nos que os anos de 1845 e 1846 foram de péssimas colheitas, desencadeando uma crise agrícola em todo o continente, ou seja, um alto e vertiginoso custo de vida atirou à miséria grandes setores da população rural e reduziu drasticamente a sua capacidade de consumo de produtos manufaturados, sendo que a crise que agravou em França, foi muito mais industrial do que agrícola. De qualquer forma, atingiu duramente as massas populares, tornando-se extremamante sensível aos apelos revolucionários difundidos pelos socialistas, que, em 1848, conquistaram grande nitidez no cenário europeu.
O Cantão de Rabastens-de-Bigorre inclui vinte e quatro comunas, inclusive Lescurry.
País - França
Região - Medio Pirineus
Distrito - Tarbes

O crepúsculo da tarde já dava lugar às estrelas no infinito céu da pequenina aldeia serpenteada por inúmeras colinas e extensos bosques de magnólias e gramíneas.Do lado oposto ao crepúsculo, via-se extensas plantações de vinhas e campos cobertos de pastagens que serviam para o alimento dos ruminantes...As casas que formavam o pequeno povoado, não passavam de construções velhas, totalmente desprovidas do mínimo conforto.Ao centro da minúscula aldeia, erguia-se uma pequenina e singela igrejinha com seu sino à tocar em dias especiais: nascimentos, casamentos e mortes.Esa era Lescurry, uma comuna encravada lá no Cantón de Rabastens-de-Bigorre...Num dia qualquer do ano de 1824, o sino da pequena aldeia badalou inúmeras vezes... Em uma das pequenas casas, uma mulher dera à luz a um menino que passou a chamar-se JEAN.Pelo que se tem notícias, o pai de Jean chamava-se Guillaume Gudolle, um irmão que ainda não sabemos o nome, e uma irmã chamada Isabeau. O nome de sua mãe ainda desconhecemos.Longe estava aquele lugar de tudo quanto se podia alcançar. As crianças iam aprendendo o ofício dos pais, ou seja,os meninos faziam a lida do campo,da horta,das podas, e as meninas aprendiam a lida da casa. Assim cresciam e as famílias iam se formando...Jean aprendera com seu pai,o gosto de cultivar flores, e o fazia muito bem. Assim, nesse meio tosco, com pouco estudo e oportunidades, cresceu o nosso JEAN.

Arquivo Pessoal de Marilia Gudolle C. Göttens

Um Tal de Manoel Veríssimo

O "Tal Manoel Veríssimo da Fonseca foi comerciante na casa ainda hoje existente localizada na esquina da Rua Pinheiro Machado com a Cel.Pilar, onde há alguns anos atrás funcionava a Loja dos Cadore. Minha avó contava que um dia, Manoel arrumou cinco contos em dinheiro e rumou à Porto Alegre para fazer compras e surtir seu estabelecimento. Para a época, a quantia representava uma fortuna, que somente os detinham, eram os fortes comerciantes e abastados fazendeiros. Foi que Manoel lá pelas tantas, resolveu banhar-se no Rio Guaíba, o que fazia tranquilamente. Enquanto nadava nas águas do rio, um homem desesperado, financeiramente arruinado, aproximou-se furtivamente do local onde Manoel deixara suas roupas, e conseguiu surrupiar os tais cinco contos de reis. Terminado o banho, o patriarca verificou que no bolso faltava o dinheiro. Muito triste retornou à Cruz Alta, sem as mercadorias pretendidas. Precisou trabalhar com redobrada energia para, após algum tempo, recuperar-se do prejuízo daquela viagem. O tempo passou e seu negócio assim mesmo muito prosperou. O prejuízo fora coberto pelos lucros dos anos seguintes. Uns seis, sete anos mais tarde, Manoel Veríssimo retornou à Porto Alegre a fim de realizar outros negócios. Num determinado ponto da cidade, foi abordado por um homem de boa apresentação, mas desconhecido, que lhe perguntou o nome. Ao responder que era Manoel Esteves Veríssimo da Fonseca, o interlocutor disse: hà, de Cruz Alta, não é? E mais alguma conversa, convidou-o para almoçarem. Quando foi meio dia, Manoel Veríssimo é recebido na casa de um riquíssimo comerciante, o qual ofereceu-lhe um grande almoço, com as mais finas iguarias e tratando-o com excepcionais atenções, chegando ao ponto de constranger Manoel. Após a sobremesa, o anfitrião disse ao criado que levasse os cafezinhos no escritório, pois tinha importante assunto a falar com o cidadão Manoel. Sentados frente à frente, atõnito e curioso, ouviu seu interlocutor perguntar-lhe por certa viagem, há muitos anos em Porto Alegre, e um banho no rio Guaíba. Manoel então relembrou a frustração daquela viagem e mais espantado ficou quando o hospedeiro lhe disse: - O ladrão fui eu! Agora, quero dizer-lhe que estava arruinado e em vias de suicidar. Aqueles cinco contos de réis, salvaram a minha vida e com aquele dinheiro enriqueci. Agora, quero pagar-lhe cinco, dez vezes mais que aquela importância. E Manoel, ainda meio aturdido deixou apenas definir o seu caráter: - "Não, me devolva apenas os cinco contos, porque esse dinheiro salvou a vida de um desesperado". E apenas recebeu a quantia que perdera, formando-se sólida amizade entre ambos. O nome do dito cujo ficou em segredo. Manoel jamais contou o nome dessa pessoa.

Arquivo Pessoal de Marilia Gudolle C. Göttens