REGISTROS, GENEALOGIAS, HISTÓRIAS E POESIAS...
a fim de preservação da memória de nossos ancestrais
MARILIA GUDOLLE C. GÖTTENS

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sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Revolução Farrapa - Toque de silêncio

          É hora de soprar as velas. Acender a luz elétrica. Escutar o telefone, as buzinas estridentes. O matraquear de um edifício em construção. É hora de voltar ao ritmo da vida moderna.
          Um mergulho no passado nos devolve estonteados. Meus ouvidos se habituaram com o canto dos pássaros. meus olhos ainda estão cheios de vaga-lumes. De horizontes a perder de vista. Anseio pelo gosto da pitanga. Acostumei-me ao ar perfumado de outro século.
          Passeio pelo apartamento em busca de algo do passado. Qualquer traço de união com o mundo em que vivi. Sorrio ao lembrar-me de um sobrevivente do Rio Grande antigo. Aqueço água no fogão a gás e ponho erva na cuia. O gosto do chimarrão é o mesmo de todos os tempos. Herança nativa que teima em sobreviver.
          Tomando mate me aproximo da janela. O dia já está claro. Automóveis vão tomando conta da rua. Entre os edifícios, ainda vejo uns retalhos do Guaíba. Sereno e cor de café com leite. Por sobre o telhado do Teatro São Pedro, descanso a vista na Praça da Matriz. Todos os jacarandás estão floridos. Os balanços ainda estão vazios. Pessoas caminham apressadas. Ninguém se cumprimenta. Ninguém tem tempo a perder.
          Antes de ser arrastado pela correnteza, procuro os traços que a revolução deixou. Do outro lado da praça, no lugar do antigo casarão de onde fugiu Fernandes Braga, ergue-se um palácio de estilo neoclássico. Ainda trabalha e dorme ali o presidente da província. Mas o palácio se chama Piratini. A Rua da Igreja é agora Duque de Caxias. O poder legislativo se abriga no Palácio Farroupilha. A bandeira da República Rio-Grandense ondula ao lado da bandeira do Brasil.
          Tiro o carro da garagem e saio à procura de outra praça. Tenho a cabeça povoada de fantasmas. Dirijo devagar. Estaciono o carro e saio a caminhar entre as paineiras. Parecem árvores de Natal enfeitadas de algodão. A praça está deserta. Um leque de palmeiras imperiais contorna a estátua branca. Garibaldi e Anita ali estão a minha frente. É bom vê-los juntos outra vez.
          Garibaldi nunca esqueceu o Rio Grande. Da Itália, respondendo a uma carta de Domingos José de Almeida, assim recorda seus companheiros de revolução:

 "Quando penso no Rio Grande, nessa bela e cara província, quando penso no carinho                                      como fui recebido por vossas famílias, onde fui considerado como filho. Quando penso                        em vossos valorosos concidadãos e nos sublimes exemplos de amor pátrio e abnegação                        que deles recebi, fico realmente comovido. E o passado de minha vida se projeta na                              memória como alguma coisa de sobrenatural, de mágico, de verdadeiramente     romântico.
          Vi quantidades de tropas mais numerosas, batalhas mais renhidas, mas nunca vi, em nenhuma        parte, homens mais valentes nem cavaleiros mais brilhantes do que os da cavalaria rio-            grandense, em cujas fileiras comecei a desprezar o perigo e combater dignamente pela causa das nações. Quantas vezes fui tentado a revelar ao mundo os feitos assombrosos que vi realizar por essa gente viril que sustentou por mais de nove anos a mais encarniçada luta contra um poderoso Império!..


          Um joão-de-barro está fazendo ninho no peito de Garibaldi. Mas as pessoas que passam não vêem esse poema de amor. É preciso seguir em frente. tenho ainda uma promessa a cumprir.
          Atravesso as pontes do Guaíba. Vou em busca da casa de Gomes Jardim. Dali partiram os primeiros combatentes de 1835. E ali se apagou a última chama da revolução.
          Assinada a paz de Ponche Verde, cada um seguiu o seu caminho. Gomes Jardim e Isabel Leonor retornaram às Pedras Brancas. A estância que deu origem à cidade de Guaíba fora pilhada pelas tropas imperiais. Nenhum gado sobrara nas pastagens. Silêncio na olaria e na charqueada. Mas no alto da coxilha que domina o rio, a casa resistira ao abandono. E o cipreste continuava a balançar seus galhos ao vento sul.
          O casal está velho. E é preciso começar tudo de novo. Trabalham lado a lado como nos primeiros tempos. Os campos vão sendo repovoados. Peões antigos voltam ao galpão campeiro. Vacas vão dando cria. A semente brota na terra. A casa tem outra vez o cheiro de pão. 
          Estaciono o carro diante da casa de Gomes Jardim. Um século e meio depois do início da guerra, ela ainda está no mesmo lugar. A cidade cresceu a sua volta. Mas o cipreste ainda lhe guarda a porta. E a vista se perde na imensidão do rio.
          Começo a sentir o pulso acelerado. Desço do carro e me dirijo à casa. O tempo vai recuando a cada passo. Ainda me falta assistir ao derradeiro ato. Antes do pano cair.
          Faz frio no alto da cochilha. É o dia 18 de julho de 1847. Pouco mais de dois anos depois da paz. Está aberta a porta da sala de visitas. Muitas pessoas aguardam em silêncio. Em cada rosto uma expressão de dor. Passo por elas e me dirijo ao quarto. Cheiro forte de cânfora e de álcool. Apoiado contra os travesseiros, Bento Gonçalves acaba de morrer.
          No mesmo barco que o trouxe de Triunfo, seu corpo é levado até Camaquã. O enterro é simples. Poucos amigos estão na Estância do Cristal. Mas um deles guardará seu túmulo. Nico Ribeiro, o ex-escravo e corneteiro. E os gaúchos, passando pela estrada, ouvirão muitas vezes o clarim. É o toque de silêncio de uma guerra. Que até hoje não chegou ao fim. 



Cheuiche, Alcy, A Guerra dos Farrapos, Porto Alegre, 1984       

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Minha Avó Paterna - Maria de Paula Motta Castro






Maria de Paula Motta, minha avó paterna foi filha única do casal José Caetano V. da Motta e Francisca de Paula e Silva.
Vó Mariquinhas como assim todos a chamavam, nasceu em 13/6/1884, em Cruz Alta, RS, e faleceu em 25 de Dezembro de 1964 no mesmo local. 
Ainda quando menina aprendeu a ler e escrever em casa, através de uma professora contratada por seu pai, vinda de Santa Maria, RS.
Muito jovem ainda, já falava fluentemente o francês, tocava piano, inclusive nos "saraus" daquela época de antanho, ocorridos no Clube do Comércio em Cruz Alta, bem como escrevia discursos.
Tudo que aqui registro, me foi contado pela saudosa e muito amada "Tia Perica", sua filha, a qual tive o privilégio e uma das maiores bênçãos de com ela ter convivido sempre, até o final de seus 101 anos.


                                      Vó Mariquinhas aos 7 anos

Pelo ano de 1895, chegou em Cruz Alta um jovem rapaz vindo de Nazaré das Farinhas BA, chamado Virgilio Nunes Castro e conhecendo minha avó com apenas 13 anos, casaram em janeiro de 1897, passando o casal a residir na casa de seu sogro José Caetano Motta.
Desconheço as causas que levaram meu avô Virgilio, a vir residir em Cruz Alta.

                                         Virgilio Nunes Castro



                                 Anotação feita por José Caetano V. Motta


Após o casamento, meu avô Virgilio, passou a trabalhar como Coletor de Rendas da Fazendo Pública em Cruz Alta, até sua morte no ano de 1926.


                Vó Mariquinhas e Vô Virgilio alguns meses após seu casamento

                     
               Agradecimento Família Motta Castro pela passagem Ano Novo/1909


Arquivo Pessoal de Marilia Gudolle C. Gottens














                       
                                     

sábado, 29 de outubro de 2011

André Gudolle: Mais perdas e ganhos

Em 18/12/1905, falece Raul, filho natural de André Gudolle ao ver seu irmão Deuclydes ferido na boca por um tiro desfeichado por Fernando Marques, e recebendo 3 tiros do mesmo, deu-lhe 4 facadas, morrendo este e Raul. Os motivos, hoje desconhecidos, refere-se André:" Nada mais digo sobre este fato, pois sabeis todos os pormenores". (Memórias manuscritas de André Gudolle). (Dirigindo-se à seu filho Djalma).
Após o duplo homicídio, Deuclydes foi processado pelos familiares do tal Fernando Marques a fim de incriminá-lo como cúmplice de sua morte. "A ser real o crime, seria uma mancha em nossa família. Felizmente a verdade e a justiça triunfaram, não sendo nem pronunciado Deuclydes. A parte contrária em grau de apelação, sustentou a sentença de impronúncia do juiz de direito de Porto Alegre, Dr. Otávio Pila, isto em dias de abril de 1906".
No dia 17/4/1906, às 15 horas, após longa enfermidade falece o Major José Ferreira Sampaio, com 64 anos, sogro atual de André e seu grande amigo. "Filhos, meu velho amigo e sogro Sampaio, era avô materno de vocês.. De tempos em tempos, dirijam a Deus todo poderoso, uma prece em favor de sua alma; que Deus a tenha em sua divina glória. Amém Jesus".
"Não desdenhais meus prezados filhos, de vosso pai crer em Deus todo poderoso, também creiam. Deus, é o grande criador do universo, e todos os seres nele existentes. Com o seu incomensurável poder, pode tudo criar. Porque não criaria a alma imortal do homem? Criou!! É um segredo tão grandioso como grande é Ele. No entanto, os homens já penetraram nesse segredo, hoje não se ignora a imortalidade da alma." "Nada mais digo-vos sobre tão magno assunto. Deixo aos seus critérios. Mais tarde, quando tiverem 30 e mais anos, estudarão os fenômenos espíritas, porém com muito respeito e critério". (Memórias manuscritas de André Gudolle).
André, atendendo pedido de seu filho Djalma, solicita a seu amigo Duarte Joaquim da Silva, a mão de sua filha Isalina Monteiro Silva para sua esposa.( Duarte Joaquim, também é meu bisavô materno.) " Fostes bem sucedido quanto a teu pedido, pois foi aceito" (Memórias manuscritas de André Gudolle".
Djalmira também foi pedida em casamento pelo Tenente Américo Salles de Carvalho, oficial da marinha, natural de Rosário RS, onde sua família tinha fazenda de criação. O casamento de Djalmira não se realizou, ocasionado pela morte heróica de seu noivo, durante a revolta de João Cândido na esquadra.
O jovem Parmênio Palmeiro casou em 30/9/1909 em Itaqui, na casa da Senhora D. Luiza Palmeiro, com Deolmira Gudolle.
Parmênio e Deolmira

André Gudolle vende em agosto de 1909 a casa comercial denominada "Revolução" ao Senhor Lourenço Escobar. Desde então passa, a residir em Santo Izidro, interior de Itaqui, RS. (Essa casa ainda permanece em seu mesmo lugar. A conheci quando tinha mais ou menos 12 anos. Lembro-me perfeitamente dela, de seu interior, com vários móveis antigos, toda de pedras, rodeada de inúmeros pés centenários de laranjeiras. Quem levou-me até ao local juntamente com minha saudosa mãe, foi seu saudoso irmão Mario Silva Gudolle, por ocasião de encontrarmo-nos em visita à sua casa em Itaqui/RS.)
" Com a liquidação da casa comercial da "Revolução", trouxe-nos bastante prejuízos. Estes atingem a cincoenta contos mais ou menos. A casa que estabeleci em Bororé sob a firma "Deuclydes Gudolle", muito prejuízo nos tem dado, superior a vinte contos. Estou trabalhando com dinheiro a juros. Acolá que Deus me ajude a vencer as mil dificuldades por quais temos passado. Meu filho Djalma, teus lucros foram as tuas despesas pessoal e despesas para médico e botica que os paguei. Tua legítima, casa e mesada contendo em carteira a quitação; o mesmo, Dico (Deuclydes) também recebeu. Também está paga a legítima de Deulmira. Com a permuta entre vocês três, também entrou os bens remanescentes que você e Dico receberam". (Memórias manuscritas de André Gudolle".
Deuclydes Gudolle (meu avô materno), casa em 30/7/1913 em Itaqui, com Duartina Monteiro Silva (Vó Iaiá). Esta vem a ser irmã de Isalina Monteiro Silva, casada com Djalma. Portanto, dois irmãos, casados com duas irmãs. Estas eram filhas de Duarte Joaquim da Silva e Maria José Monteiro. ( A ascendência desta família, será postada mais adiante).

Arquivo Pessoal de Marilia Gudolle C. Göttens

Ainda, a trajetória de André Gudolle

Em 25 /9/1894, André retira-se com sua família da cidade de Itaqui, mesmo sem ter terminado a execranda revolução restauradora, a qual, só em 23/8/1895 é que concluiu por meio de "pazes".
Reabre sua casa comercial, a fim de reaver o perdido e lutar pela vida.
Deu sociedade na terça parte dos lucros, por dois anos, e metade dos lucros, por mais dois anos últimos, a seu empregado e amigo, Dyonísio Pereira da Silva, em remuneração dos muitos serviços que prestou-lhe durante o período revolucionário. " Peço-vos que todos vós, meus filhos, sejais amigos de meu sócio, muito honesto e honrado, e viu todos vós se criarem". ( Memórias manuscritas de André Gudolle".
Em virtude do falecimento de Maria Benvinda, em 18/12/1894, foi procedido ao inventário dos bens existentes, tocando a Djalma e Deuclydes, a casa na cidade de Itaqui, que foi herança dos pais de André, e parte em dinheiro que ficou sob a administração do mesmo.
A herança de Djalmira, Diulmira e Delminda, foi a metade do campo denominado "Rincão do Inferno", localizado no 2º distrito de Itaqui, nas pontas e costas do arroio Ibipuitã em sua margem esquerda, e também parte à direita, bem como parte em dinheiro e as jóias de Benvinda, tudo ficando também na administração de André.
Em 1897, André resolve casar com Maria Luiza Sampaio, filha de seu velho amigo José Ferreira Sampaio e Esmerilda Monteiro Sampaio. "Por achá-la muito digna, honrada e virtuosa, resolvi tomá-la por esposa, cujo enlace presenciastes (dirigindo-se aos filhos) no dia 23/7/1897, nesta casa, de que tudo consta em livro próprio, no cartório deste 2º distrito de Ytaqui." ( Memórias manuscritas de André Gudolle").
Após o casamento de André e Maria Luiza, Djalma foi estudar em Porto Alegre, no dia 13/4/1898.
Os avós maternos de Djalma, Deuclydes, Djalmira, Diulmira e Delminda, quais sejam: Galdino Francisco Pereira e Camila Nunes Vieira, faleceram; o 1º, em 27/8/1894, e a segunda, em 21/03/1897, ambos com idade já avançada.
André adquire meia légua de sesmaria de campos e matos, localizado no 2º distrito de Itaqui, lugar denominado "Santo Izidro", campo esse próprio para invernar bois. ("pretendo não vender este campo. Se assim suceder, desejo deixá-lo ao Djalma e ao Deuclydes, com a condição de não vendê~lo a não ser de um para o outro. É um campo especial, que dá para invernar 800 a 900 bois, e não ser necessário reinverná-los. É, portanto, muito próprio para engorda, negócio de muito resultado em nossa terra, ou por outra, é ainda um dos primeiros negócios em nosso Estado, invernar touros e vendê-los bois gordos, principalmente, se vender na invernada. Saladeiros, como dizem os castelhanos, é negócio muito arriscado. Aconselho-vos que prefiram fazer negócio na própria invernada." (Memórias manuscritas de André Gudolle).
"Todo o tempo que tens estado no colégio meu querido Djalma, estou aqui a comerciar nesta casa que dei o nome de "Revolução", para comemorar a revolução pacífica de 1889.
Os meus lucros não são grandes. Dá para viver com alguma abundância e para educá-lo e mais vosso irmão Deuclydes."
No ato de casar-me em 2ª núpcias, fiz uma disposição testamentária, isto antes de efetuar o matrimônio, no qual lego da minha terça, uma certa quantia a tua irmã Malvina, (filha natural de André, antes do casamento com Maria Benvinda), se ela tiver comportamento honesto. Também ao Raul, (filho natural de André, antes do casamento com Maria Benvinda), e a vocês todos com partes iguais, ao depois de retirar a quantia para tua" irmã." (Memórias manuscritas de André Gudolle).
No dia 14/7/1889, nasce Heraclides Sampaio Gudolle, filho de André e Maria Luiza Sampaio Gudolle. "Peço-vos a todos vocês, meus filhos, que o reconheçam como irmão e o tratem com amor fraternal, no que me darão muito prazer, enquanto eu viver. Vossa madrasta é atualmente minha esposa, a quem amo profundamente. A mesma esteve em perigo de vida ao nascer o vosso irmão. Felizmene Deus nos favoreceu em sua graça, depois de estarmos quase desanimados de salvá-la." (Memórias manuscritas de André Gudolle).
André, nessa época, se queixa muito a seus filhos, de Malvina (filha natural que morava junto com sua família). " Malvina não prima em respeito comigo. É de um gênio irracional, indomável, a ponto de exasperar-me. Se ela não proceder com respeito dora em diante, é muito provável que a disposição testamentária que em parte a ela aproveitava, eu a inutilize. Felizmente, até esta data (3/9/1899), ela tem se portado honestamente. Creio que nesse ponto, ela assim continuará, e se prevaricar (que Deus a livre), pior para ela." (Memórias manuscritas de André Gudolle).
Djalmira no ano de 1900, encontrava-se em companhia de seu tio Maximiliano Nunes Pereira, frequentando a escola. Dali segue para sua tia Julia Pereira Vieira, no Salso, em São Gabriel,
RS.
No dia 3/4/1901, às 3 horas da madrugada, nasce Esmerilda Sampaio Gudolle, 2ª filha de André e Maria Luiza Sampaio Gudolle. "Um susto levamos, pois foi um parto bem laborioso, de minha adorada esposa, a ponto de mandar vir médico operador; felizmente não foi necessário vir o médico, pois não chegou a sair de Itaqui. O nosso médico espiritual (note-se que André tinha crença espírita, tal qual seu filho Deuclydes) Perseverando Constâncio da Silva, fez o seguinte prognóstico que a mim disse: sua esposa D. Maria Luiza, não corre perigo na ocasião do parto; não precisa médico e terá o filho em princípios de abril e será do sexo feminino. O resultado, graças a Deus todo poderoso, foi matematicamente exato." " Eu já creio que por invocação do espírito, se faça excelentes curativos. Meu filho Heraclides, foi curado com muitas receitas espíritas; o mesmo Diulmira e Maria Benvinda, em certas ocasiões". (Memórias manuscritas de André Gudolle).
No dia 3/4/1905, falece Maria Luiza Sampaio Gudolle, 2ª esposa de André. " Eis que a fatalidade novamente surge em meu lar, arrebatando em suas negras garras, a vida preciosa de minha 2ª esposa, que também idolatrava. Ficaram vocês filhos queridos novamente órfãos da 2ª mãe. É ou não fatalidade, mais este sucessivo lutuoso? Isto são golpes que esmagam um coração que só palpitava de amor por esse ser tão delicado que era o encanto de minha velhice, e que se sacrificou amar-me, numa idade em que a juventude parece que não se poderá unir com tanto amor a um ser já um tanto adiantado em anos. Eu, meus filhos queridos enviuvei aos 53 anos; tomo isto como expiação de faltas que as cometi, do que não as tenho consciência. Deus, em seus decretos. que se amenize de nós. Só desejo educá-los, criar os menores e vê-los todos colocados; assim completo minha missão na terra. Deus saberá o que deve fazer a respeito de meus sofrimentos.." " Recomendo a todos os meus filhos: honradez, probidade, caridade. Suas irmãs deverão ser do vosso maior cuidado, zelando a sua honra, e tudo o mais que for em benefício delas." (Memórias Manuscritas de André Gudolle"

Arquivo Pessoal de Marilia Gudolle C. Göttens

terça-feira, 20 de setembro de 2011

André Martins (Martinez) Gudolle e Maria Benvinda Nunes Pereira












Do matrimônio de André e Maria Benvinda, houveram 5 filhos: 1. Djalma Pereira Gudolle, nasceu em 16/6/1885, no lugar denominado São José, outrora 1º distrito de São Borja. Teve como padrinhos seus avós maternos e sua tia Dª Julia Malvina Pereira. 2. Deuclydes Pereira Gudolle, (Dico), nasceu em 5/1/1888, no mesmo lugar de Djalma. Teve por padrinhos sua avó materna Virgínia Martins Gudolle e Leôncio Pereira da Silva.
No ano de 1888, André monta um estabelecimento comercial em São Canuto, 2º distrito de Itaqui e, em 1889 muda-se com sua família para esse local. Ali nasce seu 3º filho 3. Djalmira Pereira Gudolle, em 23/7/1889.
No ano seguinte, 1890, muda-se novamente, mas para local próximo, que passa a chamar de "Revolução", para comemorar a revolução pacífica que se operava no Brasil. "Longe estava de pensar que em nosso país houvessem revoluções sanguinolentas. Enganei-me. Veio uma tremenda da qual darei notícias mais adiante". (Memórias Manuscritas de André Gudolle).
"Em 29 de junho de 1891, é uma data lutuosa em nossa família. Perdi minha extremosa mãe. Acha-se sepultada no cemitério de Santo Cristo. Tem catacumba com a inscrição em pedra mármore. Faleceu com 60 a 62 anos. Conheceu os meus três filhos mais velhos, por quem estremecia". (Memórias Manuscritas de André Gudolle).


O quarto filho de André e Maria Benvinda nasceu em 9/5/1892 e chamava-se 4. Deolmira Pereira Gudolle. Teve por padrinhos, seus tios Afonso Nunes Vieira e Dª Julia Nunes Vieira.
" Vivi com minha idolatrada esposa, nove anos na campanha. Éramos muito felizes, muito nos amáva-mos. Era digna pelas suas virtudes, seus dotes físicos e morais.
Com a guerra que convulsionou o Rio Grande, que foi calamitosa para todos os seus filhos, tivemos que emigrar para a cidade de Itaqui, lugar que dava mais garantias por estar ocupada por forças governistas. Aqui tivemos o resto do ano de 1893 e todo o ano de 1894, a fim de reaver o perdido e lutar pela vida, reabrindo nosso estabelecimento comercial. Antes de nos retirar-mos para Itaqui, fomos saqueados na nossa casa comercial no dia 30 de setembro de 1893, pelas forças revolucionárias comandadas por Gomercindo Saraiva e Coronel Salgado. Houveram mais três saques de pequenos grupos revolucionários.
Entre mercadorias e gados animais, os nossos prejuízos atingiram a mais de trinta contos, não contando despesas, o tempo perdido e dívidas comerciais. Foi, portanto, calamitosa para nós, a execranda revolta. A história melhor vos informará dos morticínios medonhos praticados nessa revolução". (Memórias Manuscritas de André Gudolle).

Deolmira (Mimira), Delminda Benvinda (Vindinha), e
Djalmira (Dija), possivelmente em fins dos anos 30, em
Itaqui na estância Santa Clara, de Parmênio Palmeiro,
marido de Deolmira.


"Aproxima-se a época para mim, e todos vós meus queridos filhos, de mais desgostos, com quanto todos vós sejam pequenos, não podeis avaliar. No entanto, no dia 18 de dezembro de 1894, na cidade de Itaqui, perdestes vossa extremosa e carinhosa mãe, minha virtuosa esposa. Foi uma fatalidade para todos nós. Que perda irreparável meus queridos filhos, todos vós em tenra idade. Que golpe profundo a mão fatal do destino desferiu sobre nossa família.
Vós, meu querido Djalma, ficastes órfão aos 9 anos, meu Dico aos 7 anos, minha Djalmira aos 2 anos e meio, e a última, que nasceu no dia 13 de setembro de 1894, que dá pelo nome de 5. Delminda Pereira Gudolle, ficou órfão com 3 meses e cinco dias. Que injustiça da sorte. Seja feita a vontade de nosso Deus, que tudo pode. Lamento mais por todos vós, que não mereciam tão cedo, sorte tão cruel; o desaparecimento daquela que lhes deu o ser e que era tão extremosa e dedicada para mim.
Ao relatar-vos este acontecimento, que já lá vai para mais de dois anos, sangra-me o coração, cem anos que vivesse; idolatrarei a memória de quem foi vossa mãe, de quem foi minha esposa". (Memórias Manuscritas de André Gudolle).

Arquivo Pessoal de Marilia Gudolle C. Göttens

domingo, 17 de julho de 2011

O Genearca Bonifácio José Nunes - Fundador do Herval

Em novembro de 1773, com o objetivo de destruir o forte de Rio Pardo, o que facilitaria a conquista de todo o Continente de São Pedro pelos espanhóis, à frente de um contingente armado de quatro mil homens, partiu de Montevidéo o governador de Buenos Aires, D.Juan José de Vertiz Y Salcedo. Estes planos foram frustrados pelo notável Rafael Pinto Bandeira e seus companheiros.
O baluarte de Rio Pardo, com poucos defensores e pequena artilharia, não tinha condições de oferecer resistência ao assédio dos invasores. - D.Vertiz Y Salcedo, de passagem pela região de Bagé, mandou erigir um forte num local elevado, e deu-lhe o nome de Santa Tecla, deixando ali uma guarnição espanhola.
As hostilidades tiveram início com o ataque surpresa de Rafael Pinto Bandeira sobre as tropas de D. Antonio Gomes acampadas no arroio Santa Bárbara, destroçando-as completamente e aprisionando o comandante. Esta importante ação ocorreu a 02 de janeiro de 1774. Poucos dias depois, Pinto Bandeira atrai a perseguição do exército de D. Vertiz Y Salcedo, conduzindo-o para uma armadilha na região de banhados de Pantano Grande e obtém aí a importante vitória de Tabatingaí.
O marechal espanhol chega frustrado a Rio Pardo, a 17 de janeiro de 1774. O governador José Marcelino de Figueiredo, usando de astúcia, faz troar a artilharia mudando as peças do lugar para dar a impressão de ter mais canhões do que realmente tinha. Com isso, ilude os espanhóis já desanimados por duas derrotas consecutivas que desistem de atacar Rio Pardo e iniciam a retirada sempre molestados por Pinto Bandeira. Este na passagem do Rio Camaquã, acossa-os duramente.
Os portugueses com os sucessos alcançados garantiram a posse do Rio Grande do Sul.
No ano seguinte, Pinto Bandeira toma o forte de São Martinho do Monte Grande, abrindo as portas à conquista do território das Missões.
Em 26 de março de 1776, Pinto Bandeira consegue a rendição do forte de Santa Tecla, arrasando-o totalmente.
A corte de Portugal parece despertar e sentir a necessidade de garantir a fronteira meridional de sua maior colônia. Organiza um grande exército e entrega o comando ao tenente-general José Henrique Bohm, com a finalidade de retomar a vila de Rio Grande. Daí os espanhóis são expulsos em abril de 1776.
Quando a situação se revertia favorecendo os portugueses, é assinado o tratado de Santo Ildefonso, em 01 de outubro de 1777, lesivo a Portugal que ficava sem a Colônia do Sacramento e as Missões, tendo em compensação o reconhecimento da posse de Rio Grande.
Os portugueses e sobretudo os gaúchos, não se conformaram com este acerto das metrópoles e opuseram inúmeras dificuldades à demarcação das fronteiras.
Pelo tratado de Santo Ildefonso, a linha divisória no extremo sul seria a vertente mais ao norte, que desembocasse na Lagoa Mirim, e a convenção de Lisboa fixou-a como sendo o Piratini.
Assume interinamente o governo da Capitania de São Pedro, a 31 de maio de 1784, o brigadeiro Rafael Pinto Bandeira. Considerando que o Piratini não é afluente da Lagoa Mirim, e sim do São Gonçalo, dá uma melhor interpretação ao pacto firmado entre as metrópoles. Buscando a primeira vertente volumosa que deságua na Lagoa Mirim, muda o acampamento militar do passo Maria Gomes, no rio Piratini, para a serra do Herval, nas nascentes do Arroio Grande. Apesar dos protestos dos espanhóis, esta guarnição do Regimento dos dragões permaneceu ali por dezessete anos (1784-1801).
Este acampamento militar deu origem à cidade de Herval do Sul. As primeiras casas tinham parede de torrão de pau-a-pique, cobertas de santa-fé e
começaram a ser construídas em 1786.
Os habitantes que ali se fixaram eram quase todos antigos guerrilheiros do Corpo de Dragões, companheiros de luta de Rafael Pinto Bandeira. Entre eles estava o genearca BONIFÁCIO JOSÉ NUNES, natural de Rio pardo, com o posto de cabo de esquadra e que ao chegar ao acampamento tinha 16 anos. Quando o destacamento se retirou, em 1801 para atacar a Guarda de Santo Antônio da Lagoa, guarnição espanhola na embocadura do rio Jaguarão por ordem do governador da província do Rio Grande, Sebastião Xavier da Veiga Cabral da Câmara, BONIFÁCIO JOSÉ NUNES permaneceu na povoação e estava nessa ocasião com trinta e três anos de idade. O seu chefe Rafael Pinto Bandeira, já havia falecido na cidade de Rio Grande em 9 de janeiro de 1795.
Os seus antigos companheiros de armas, com o estímulo e a anuência de Pinto Bandeira, que extrapolou as suas atribuições para isso, haviam se estabelecido nos campos neutrais, entre o Arroio Grande e o rio Jaguarão. Pinto Bandeira previa que este rio seria um dia a linha divisória entre Portugal e Espanha.
Entre os que foram contemplados com glebas nestas áreas litigiosas estava nosso genearca BONIFÁCIO JOSE NUNES, a quem estava reservado o principal papel de FUNDADOR DA POVOAÇÃO, bem como José da Silva Tavares, Jose Teixeira Pinto, Boaventura Pereira da Silva, Antonio Madruga de Bittencourt e Antônio dos Santos Abreu. A propriedade de BONIFÁCIO JOSE NUNES estava localizada no Arroio dos Nunes.
Cerca de cinquenta chefes de família tornaram-se habitantes urbanos na nascente da povoação. Por iniciativa de BONIFACIO, os moradores se organizaram em sociedade, para adquirir o terreno onde estava edificada a povoação, uma vez que com a retirada do destacamento militar, o núcleo do vilarejo em formação sofreu ameaça de aniquilamento. O proprietário do terreno ocupado pelos moradores Antonio Rodrigues Barcelos, requereu o despejo dos habitantes como intrusos, o que levou BONIFÁCIO e seus amigos a organizarem a tal sociedade. Posteriormente, cotizaram-se e compraram a área que foi doada à Irmandade Nossa Senhora da Conceição. Também reconstruíram a antiga capela do acampamento, consagrando-a São João Batista. Conseguiram provisão episcopal e nestas condições ficou constituída, em dezembro de 1805, a Freguesia de São João Batista do Herval.

Nunes Vieira, José Cypriano, Edifunba - 1988.