REGISTROS, GENEALOGIAS, HISTÓRIAS E POESIAS...
a fim de preservação da memória de nossos ancestrais
MARILIA GUDOLLE C. GÖTTENS

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quinta-feira, 5 de junho de 2014

                          UM TAL CHICO ESTANCIEIRO  -  Antônio Francisco Correia da Silva


            "Nos tempos de antanho, havia no interior do município do Itaqui, época das carroças e carrinho de rodas fina puxado por dois cavalos gordos, sendo que na parte de trás carregava-se um baú para acomodar as malas com destino até a estação ferroviária, homens que usavam fraque e mulheres donzelas com suas roupas coloridas.
           Havia a estação do Bororé, a de Maçambará e de Tuparay naquelas plagas interioranas do Itaqui; todas construídas de pedras com código morse e um sino para indicar o horário de saída do trem...
           Lá nesse fundão onde o sol se esconde no horizonte morava "um tal Chico Estancieiro" (Antônio Francisco Correia da Silva) que veio a casar com Rita de Cássia Monteiro Sampaio, uma das filhas de José Ferreira Sampaio e Esmerilda Antunes Monteiro Sampaio ( citados anteriormente neste Blog, sob o título "Uma parte de Nós - Os Monteiro Ferreira Sampaio"  30/04/2013).
          Rita de Cássia e Chico tiveram os filhos: a) Maria Luiza Sampaio Silva, n. em Itaqui, Rs, em 03/09/1898; b) Luiz Darcy, n. em Itaqui, Rs, em 28/12/1904 e Percy n. em Itaqui, Rs, em 02/02/1912.

            a) MARIA LUIZA SAMPAIO SILVA casou em Itaqui em 24/12/1915, aos 17 anos, com PEDRO DE AZEVEDO CONCEIÇÃO, n. em 21/02/1888 em São Sebastião do Caí, Rs. Era o  filho mais velho do casal Maria Antônia Teles de Azevedo, n. em 29/02/1869 e Virgilio de Souza Conceição, n. em 20/03/1857 em Porto Belo, SC. O casal, cujas famílias estão vinculadas a alguns dos mais antigos troncos do Rio Grande do Sul, tinham mais cinco filhos: Marieta, casada com Gastão Prates, Julieta, Moreninha, Jorge e Daura, casada esta com Oscar Fischer.
           Pedro de Azevedo Conceição passou parte de sua infância na região colonial onde seu pai, engenheiro agrimensor formado pela Universidade de Barcelona, Espanha, demarcou as terras do local Campos dos Bugres, atual cidade de Caxias do Sul, onde havia uma rua com seu nome.
            Pedro morou também em Montenegro, RS, na Fazenda do Pontal, de propriedade de sua família. Fez seus estudos em Porto Alegre e, por volta de 1913, foi nomeado professor na cidade de São Borja, RS. Ná época, era Secretário da Educação o Dr. Protásio Alves e o Rio Grande era governado por Júlio de Castilhos. Algum tempo depois, Pedro transferiu-se para a cidade do Itaqui onde foi professor da Escola Elementar.
            Em Itaqui foi que conheceu a jovem Maria Luiza Sampaio Silva (Dima), com quem se casou. O pedido de casamento foi feito por seu amigo Coronel Euclides Aranha, pai de Osvaldo Aranha. Pedro essa época contava com 27 anos.
            A lua-de-mel foi em Buenos Aires, Argentina.
            Como a sogra de Pedro Rita de Cássia já era viúva, após o casamento Pedro passou a administrar a fazenda Sina-Sina, de propriedade de sua sogra, passando mais tarde, a arrendá-la. Dedicou-se a essa atividade por mais de 50 anos. Com a morte de Rita de Cássia, as terras foram divididas entre Dima e Percy que ficou com a sede. Na parte que coube à Dima, foi construída outra casa e a propriedade foi chamada de "Rancho Grande". Na fazenda, Pedro lecionava os filhos, ajudado pela irmã Moreninha que morou durante algum tempo com a família do irmão.
            PEDRO e DIMA tiveram 6 filhos: Déborah, Ilka, Darcy, Nilo, Fábio e Beatriz. Déborah casou com Humberto Zaccaro Faraco, Ilka casou com Alexandre Orcy, Darcy casou com Maria do Carmo Matos, Nilo casou com Amira Squeff, Fábio casou com Teresa Krebs e Beatriz casou com Washington Manoel Vijande de Sosa Bermúdez.
            Pedro era alegre e barulhento. Contava histórias com muita graça e seu riso contagiava quem estivesse por perto. Adorava ir ao clube do Comércio em Itaqui, do qual foi presidente. Houve uma época em que a família morou em frente ao clube. Quando Dima queria saber onde ia o marido, abria a janela da casa e logo escutava as risadas e a voz trovejante dele, divertindo-se com os amigos no prédio em frente.
            Pedro dançava bem e não perdia bailes. Era ele quem marcava a quadrilha, dando os comandos em francês.
           Amplamente relacionado na sociedade Itaquiense, foi um elemento de destaque em sua comunidade.
           Era um homem de vasta cultura e voltado ao progresso. Alegre, extrovertido e comunicativo, Pedro foi um grande entusiasta das artes. Apreciava os livros, tanto a prosa como as poesias e adorava charadas e trocadilhos. Mas sua paixão era a música. Cultivou a música popular e a clássica e era exímio e talentoso pianista.Gostava de tocar valsas, sambas, marchas, polcas, tangos e maxixes.
           Depois das lidas do campo na fazenda Sina-Sina, tomava seu banho, colocava o pijama e sentava-se ao piano. Tocava durante horas e todos dançavam, inclusive Dima. A música atraía a peonada que se debruçava na cerca para ouvir.
       Tornou-se rádio amador e lá no Rancho Grande levantava antes do sol nascer para chamar os companheiros de rodada. Fazia o maior barulho e acordava todo mundo caminhando de tamancos e com a bombacha sempre caindo. Ligava o gerador, pigarreava em altos brados e já começava: "Bororé de Bororé" . Foi numa dessas rodadas que o amigo Juca Vieira, conhecido pelas tiradas cômicas, contou que tinha ouvido notícia de que havia começado uma guerra meio mundial e que a Alemanha tinha invadido um país com nome parecido com égua (Noruega).
           Adorava os netos e dava-lhes apelidos estranhos como " Dona Sezebuta, Dona Maria Quitéria e Seu Fulano dos Anzóis, Carapuça ou dos Pinhais", divertindo-se com as caras desconfiadas que faziam.
            Era bom cavaleiro e, na fazenda, sua montaria preferida era uma égua chamada Bugra, preta e com uma estrelinha branca na testa. Já bem mais tarde, montava uma égua tordilha chamada Bolacha que os peões não deixavam os netos encilhar porque o animal "era do andar do patrão".
            Tinha um hábito engraçado. Quando estava na cidade, chegava em casa e colocava o pijama, quase sempre listrado de preto branco e azul, conservando a camisa social e a gravata. Aliás, antigamente era chique os cavalheiros usarem o casaco de pijama como blazer nas viagens de trem.
            Na mocidade dava suas escapadas. No Bororé ou no Recreio, vivia um certo Pedro Lacerda que, segundo diziam era filho dele com uma tal de Selvanira, filha de um posteiro da fazenda. Pedro Lacerda morreu em 14 de fevereiro de 203, aos 72 anos e deixou uma família numerosa
            Pedro Conceição só envelheceu fisicamente. Durante sua longa enfermidade ele dizia inconformado: "a carcaça é velha, mas o espírito ´continua jovem". Faleceu em 09 de agosto de 1969, aos 81 anos em Porto Alegre, e tocou piano até a véspera de sua morte.


1ª Parte: Jorge Fernando Sampaio Gudolle e Marilia Gudolle Gottens
Family Search Centers Igreja Católica Registros Itaqui RS/São Patrício
2ª Parte: Rita Faracco
             
            
              
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sexta-feira, 8 de junho de 2012

Cuentos da Tia Avó Dija (Djalmira Gudolle)

A Vó Dija mantinha um "salon" em Itaqui, RS, onde se conspirava a Revolução de 1930 e do qual participaram entre outros, o seu cunhado Oswaldo Aranha e o Getúlio Vargas, que a chamava de "prima".
Tia Dija foi muito pioneira nisto, pois naquele tempo raras foram as mulheres que se envolveram em política.
Sua atuação na Revolução de 30 que está no Diário de meu bisavô André Gudolle, seu pai, sobre o Tio Oswaldo, foi, no mínimo heróica!!!!
Defendeu o Luiz Aranha com o próprio corpo, dos tiros que os legalistas lhe prepararam do barco em que iam fugir para Alvear (Argentina) , e convenceu vários soldados legalistas a passarem para o lado dos revolucionários.
Conseguiu dinheiro,cigarros, fósforos, fez pastéis e pão de minuto e distribuiu tudo pela soldadesca.
Isto tudo está documentado em carta que Tia Dija escreveu à D. Luizinha Aranha. No final da carta assim ela ainda escreveu:" Me perdoe se perjuro, mas sinto que Deus me tenha posto nesta figura de mulher; como homem, teria feito muito mais por nossa terra"...


Arquivo Pessoal de Marilia Gudolle C. Göttens

terça-feira, 20 de março de 2012

Rita de Cássia Monteiro Sampaio - Uma História de Família



Como já postado anteriormente, Rita de Cássia Monteiro Sampaio nasceu em 1873 em Itaqui, RS, sendo filha do Major José Antunes Monteiro, filho de Miguel Ferreira Sampaio e Leonor de Araújo Nóbrega; e de Esmerilda Monteiro Silva, filha de Duarte Joaquim da Silva e Maria José Monteiro Silva.
Rita de Cássia casou com Antônio Francisco Corrêa da Silva, nascido em 1871.
Em 3 de setembro de 1898, nasce desta união Maria Luiza Sampaio da Silva, em Itaqui, RS. Esta Maria Luiza, vem a ser sobrinha da outra Maria Luiza, casada com André Gudolle em 2ªs núpcias.

Arquivo Pessoal de Marilia Gudolle Göttens.


A seguir, " História de Família", autoria de Rita Faraco.

Dima, Pedro e filhos

"Nosso avô, PEDRO DE AZEVEDO CONCEIÇÃO, nasceu em São Sebastião do Caí, RS, em 21 de fevereiro de 1888. Era o filho mais velho do casal Maria Antônia Teles de Azevedo, nascida em 29/02/1869 e Virgílio de Souza Conceição, nascido em 20/3/1857, em Porto Belo, SC. O casal cujas famílias estão vinculadas a alguns dos mais antigos troncos do Rio Grande do Sul, tinha mais 5 filhos: Marieta, casada com Gastão Prates, Julieta, Moreninha, Jorge e Daura, casada com Oscar Fischer.
Vovô passou parte de sua infância na região colonial, onde seu pai, engenheiro agrimensor, formado pela Universidade de Barcelona, Espanha, demarcou as terras do local Campos dos Bugres, atual cidade de Caxias do Sul, onde havia uma rua com seu nome.
Morou também em Montenegro, na Fazenda do Pontal, de propriedade de sua família.
Fez seus estudos em Porto Alegre e, por volta de 1913, foi nomeado professor na cidade de São Borja. Na época, era Secretário de Educação o Dr. Protásio Alves e o Rio Grande do Sul era governado por Júlio de Castilhos. Algum tempo depois, Pedro transferiu-se para a cidade de Itaqui, onde foi professor e diretor da escola Complementar.
Em Itaqui, conheceu a jovem Maria Luiza Sampaio Silva (Dima), nascida em 3/9/1898, em Itaqui, filha de Rita de Cássia Monteiro Sampaio e de Antônio Francisco Corrêa da Silva. Apaixonou-se, e seu amigo Coronel Euclides Aranha, pai de Oswaldo Aranha, pediu em seu nome a mão da donzela. Aceito o pedido, o casamento realizou-se em 24/12/1915, quando Maria Luiza tinha 17 anos e Pedro 27. A lua-de-mel foi em Buenos Aires, Argentina. Até chegar ao destino, Pedro e Dima foram vendo o Natal em todas as cidades que passavam.
Como a sogra era viúva, após o casamento Pedro passou a administrar a fazenda Sina-Sina, de propriedade dela, passando, mais tarde, a arrendá-la. Dedicou-se a essa atividade por mais 50 anos. Com a morte da Vovó Rita, as terras foram divididas entre a Vovó Dima e Tio Percy, que ficou com a sede. (Percy era também filho de Rita e Antônio Francisco). Na parte que coube a Vovó, construiu outra casa e chamou a propriedade de Rancho Grande. Na fazenda, lecionava os filhos, ajudado pela irmã Moreninha que morou durante algum tempo com a família do irmão.
Pedro e Dima tiveram 6 filhos: Déborah, Ilka, Darcy, Nilo, Fábio e Beatriz. Déborah casou com Humberto Zacaro Faraco, Ilka casou com Alexandre Orcy, Darcy casou com Maria do Carmo Mattos, Nilo casou com Amira Squeff, Fábio casou com Teresa Krebs, Beatriz casou com Washington Manoel Vijande de Sosa Bermúdez.
Vovô era alegre e barulhento. Contava histórias com muita graça e seu riso contagiava quem estivesse por perto. Adorava ir ao Clube do Comércio em Itaqui, do qual foi presidente. Houve uma época em que a família morou em frente ao clube. Quando Vovó Dima queria saber onde andava o marido, abria a janela da casa e logo escutava as risadas e a voz trovejante dele, divertindo-se com os amigos no prédio em frente. Vovô dançava bem e não perdia bailes. Era ele quem marcava a quadrilha, dando os comandos em francês.
Quando Vovô ainda morava em Montenegro e marcava a quadrilha em português em um baile da campanha, um dos comandos era "olha a cobra". Foi nessa hora que a moça com quem fazia par, achando que era uma cobra de verdade, desapareceu espavorida. Ele contava essa história às gargalhadas.
Amplamente relacionado na sociedade Itaquiense, foi um elemento de destaque em sua comunidade. Era um homem de vasta cultura e voltado ao progresso. Alegre, extrovertido e comunicativo, Pedro foi um grande entusiasta das artes. Apreciava os livros, tanto a prosa como as poesias, e adorava charadas e trocadilhos. Mas sua paixão era a música. Cultivou a música popular e a clássica e era exímio e talentoso pianista. Gostava de tocar valsas (Subindo ao Céu, que dedicava à Vovó, Romanza, Eponina e Flor do Mal) sambas (Tico-tico no Fubá), marchas (Saudade de minha Terra), composições de Zequinha de Abreu e de Ernesto Nazareth, polcas, tangos (Brejeiro) e maxixes (Pisando em Ovos, de autoria de Carlos de Abreu, cunhado de Getúlio Vargas).
Depois das lidas do campo na fazenda Sina-Sina, Vovô tomava banho, colocava o pijama e sentava-se ao piano. Tocava durante horas e todos dançavam, inclusive Vovó Rita. A música atraía a peonada que se debruçava na cerca para ouvir.
Tornou-se rádio amador e lá no Rancho Grande levantava antes do sol nascer para chamar os companheiros de rodada. Fazia o maior barulho e acordava todo mundo caminhando de tamancos e com a bombacha sempre caindo. Ligava o gerador, pigarreava em altos brados e já começava: "Bororé de Bororé"...
Foi numa dessas rodadas que o amigo Juca Vieira, conhecido pelas tiradas cômicas, contou que tinha ouvido notícia de que havia começado uma guerra meio mundial e que a Alemanha tinha invadido um país com nome parecido com égua (Noruega).
Adorava os netos e dava-lhes apelidos estranhos como: Dona Sezebuta, Dona Maria Quitéria e Seu Fulano dos Anzóis, Carapuça ou dos Pinhais, divertindo-se com as caras desconfiadas que faziam.
Era bom cavaleiro e, na fazenda, sua montaria preferida era uma égua chamada Bugra, preta e com uma estrelinha branca na testa. Depois, já no meu tempo, montava uma égua tordilha chamada Bolacha que os peães não deixavam os netos encilhar porque o animal "era do andar do patrão".
Tinha um hábito engraçado. Quando estava na cidade, chegava em casa e colocava o pijama, quase sempre listrado de preto, branco e azul, conservando a camisa social e a gravata. Aliás, antigamente era chique os cavalheiros usarem o casaco de pijama, como blazer nas viagens de trem.
Na mocidade, dava suas escapadas. No Bororé ou no Recreio vivia um certo Pedro Lacerda que, segundo diziam, era filho dele com uma tal de Selvanira, filha de um posteiro da fazenda. Pedro Lacerda morreu em 14/2/2003, aos 72 anos e deixou uma família numerosa. Tio Fábio conheceu-o e considerava-o uma excelente pessoa.
Vovô só envelheceu fisicamente. Durante sua longa enfermidade ele dizia inconformado:" a carcaça é velha, mas o espírito continua jovem". Morreu em 9/8/1969, aos 81 anos, em Porto Alegre, e tocou piano até a véspera de sua morte.

Arquivo pessoal de:
Rita Faraco, neta de Maria Luiza Sampaio Silva e Pedro Conceição.














quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Cuentos da Tia Avó Dija (Djalmira Gudolle)

O cerco da Fortaleza, sede da fazenda "Bela União"

Pois dizia a tia avó Dija que durante o cerco, que começou depois do café da manhã, não havia comida pronta e a mesma proibiu que quem quer que fosse comessem para que todos ficassem atentos a seus postos e armas. Mas uma ex- escrava ( o fato aconteceu em 1908, 20 anos após a Abolição, e minha tia avó Dija tinha dezenove anos) , encontrou um pedaço de pão dormido que sobrara da primeira refeição. Todos estavam com fome, pois o cerco durava além do meio dia. Então, a ex- escrava da família, começou a comer o que encontrara. Mas um cupincha me avisou.
Fiquei furiosa com a ex-escrava que não recordo o nome, não tanto porque estivesse comendo, mas porque eu tinha de manter minha autoridade, e minha ordem era de que ninguém pudesse comer antes de terminado o cerco dos bandoleiros. Então, agarrei o pescoço da negra, apertei sua garganta e fiz com que devolvesse o pedaço de pão, dizendo mais com firmeza do que com raiva para que todos ouvissem: "Se alguém tem de comer aqui, sou eu!" por sorte, quando eu acabei de falar isto, ouvimos tiros que espantaram os bandidos. Papai estava voltando com todos os nossos, e o cerco acabou. Mandei a negra para a cozinha, preparar o almoço. Graças a Deus, pois estáva-mos mortos de fome". E assim, nessas palavras a tia avó Dija contava, sem nenhuma agressividade, lembrando do passado com prazer, sabendo interessar a todos com seus cuentos cheios de verdades e invenções".

" A sede da fazenda Fortaleza, quando desta história contada pela tia avó Dija, foi cercada por bandoleiros e a feminina, perfumada, elegante e bem penteada Dija, assumiu o cerco e venceu. Os homens tinham todos saído para ir atrás dos bandoleiros. Era o que eles queriam. Caíram no embuste, mas a Vó estava lá. Tia Deolmira me disse em certa ocasião que não era pelas lutas contra os castelhanos, mas contra os bandoleiros que infestavam a região do Itaqui, pelo menos até 1908, quando o fato ocorreu"

Arquivo Pessoal de FCG e Marilia Gudolle C. Göttens

domingo, 14 de agosto de 2011

Ainda sobre Bonifácio José Nunes e sua Família


Aos 53 anos de idade, BONIFÁCIO foi expectador dos acontecimentos que marcaram o Rio Grande de São Pedro, como anteriormente e a seguir postados.
Mas não para aí tudo o quanto um homem de sua bravura poderia ainda presenciar.
Seus descendentes mais jovens, corajosamente participaram dos conflitos militares que iam sucedendo: Jerônimo José Assumpção Nunes, Davi Francisco Pereira, Pedro José Assumpção Nunes.
Ao findarem as operações militares, todos voltavam ao trabalho, envolvendo-se principalmente, nas lides campeiras, devido à valorização do gado que aumentava sucessivamente. As estâncias prosperavam e a criação do gado cada vez mais se expandia. BONIFÁCIO consolidava seu patrimônio dedicando-se à agricultura e à pecuária nos campos do Herval, que não tinham sido afetados diretamente pelas guerras. Casava os filhos e via crescerem os netos.
No ano de 1825, chega à BONIFÁCIO e sua família no Herval, a notícia da invasão da Província Cisplatina, por orientais independentes.
Era o início de outra guerra desastrosa para o Império Brasileiro. Após, o Império Brasileiro declara guerra à Argentina.
Os membros da família NUNES que eram veteranos soldados em outras campanhas, alistaram-se nas forças brasileiras, que defendiam a terra ameaçada pelo invasor.
O território do Herval, palmilhado e pilhado em toda a sua extensão, sofreu os males da passagem de um exército de dez mil homens, que só para se alimentar, necessitava de milhares de cabeças de gado diariamente. Estâncias e lavouras foram arrasadas.
Na oportunidade, João da Silva Tavares, outro genro de BONIFÁCIO, com os seus comandados, recebeu a missão de evacuar o Herval. Os habitantes da vila e dos arredores foram levados para a segurança de Piratini. BONIFÁCIO e sua família refugiaram-se nesta vila e só regressaram ao Herval, ao cessarem as hostilidades, com a expulsão do invasor.
Esse conflito terminou a 27 de agosto de 1828 com a assinatura da Convenção Preliminar da Paz no Rio de Janeiro, reconhecendo o Uruguai como Estado independente do Brasil e as Províncias Unidas do Rio da Prata aprovaram, em 1830, a Primeira Constituição Política da República Oriental do Uruguai.
Enorme desolação causou aos ervalenses esta guerra.
Após um intervalo de sete anos, novas lutas vieram ensanguentar o solo rio-grandense. Não mais uma disputa de territórios ou demarcação de fronteiras, mas um choque entre irmãos, na longa Revolução Farroupilha. Muitas vidas sacrificadas e enormes prejuízos materiais.
A quase totalidade da família NUNES se opôs ao movimento de vinte de setembro, permanecendo fiel à legalidade, por influência de BONIFÁCIO. Lutaram com tenacidade e desprendimento no sustento do Império Brasileiro, sendo que alguns perderam a vida e, a maioria, os seus haveres. Quando o conflito terminou, ao final de quase dez anos, os sobreviventes estavam todos empobrecidos.
O papel mais destacado entre os imperiais, coube, sem dúvida, a João da Silva Tavares, genro de BONIFÁCIO, bem como outros genros de BONIFÁCIO, como o Major Davi Francisco Pereira, Capitão Serafim Caetano Alves Vieira, José Joaquim da Porcíuncula e Francisco Feijó; e ainda, os seus filhos Capitão Jerônimo José Assumpção Nunes, Tenente Pedro José Assumpção Nunes. Amálio José Assumpção Nunes e Antônio Vido Assumpção Nunes. Alguns tombaram na luta, outros conseguiram sobreviver aos perigos dos combates e às balas dos inimigos, voltando a se empenhar nas atividades produtivas da sociedade gaúcha.






O patriarca BONIFÁCIO vivia momentos difíceis no Herval. Com o trânsito de tropas arrebanhando gado e destruindo lavouras, as atividades econômicas se restringiam acentuadamente na região. O clima era de insegurança e nestas condições, mandou que algumas filhas buscassem abrigo no Uruguai e outras se recolhessem à segurança de Rio Grande, na residência de parentes.
Ele e sua mulher permaneciam no distrito olhando pelos bens ameaçados, procurando minorar os prejuízos.
Nesse meio tempo, tomba o major Davi Francisco Pereira, veterano das campanhas cisplatinas, ao receber uma bala atravessando seu peito na batalha do Seival.
Bonifácio tinha a chorar vários familiares mortos neste combate.

Nunes Vieira, José Cypriano - Edifunba - 1988

domingo, 17 de julho de 2011

Breve História da vida de Bonifácio José Nunes e Gertrudes Bernarda de Assumpção - Ascendentes de Maria Benvinda Nunes Pereira Gudolle


As atividades econômicas desenvolvidas em torno da povoação de Herval eram variadas, condizentes com a época e com as características da região.
O extrativismo da erva-mate nos abundantes ervais ali existentes a ponto de sua destruição completa, indicam ter sido este um negócio importante para os novos povoadores e talvez, sua primeira fonte de rendimento.
BONIFÁCIO JOSÉ NUNES e sua esposa GERTRUDES BERNARDA DE ASSUMPÇÃO, segundo Costa Medeiros, foram um dos maiores plantadores de trigo na região, na sesmaria sobre o Arroio Grande. Ali também cultivavam o milho, o feijão e a mandioca, tendo Bonifácio um engenho onde também fabricava a farinha. Também há informações de que as quintas de laranjeiras, limoeiros, bergamoteiras, marmeleiros e pessegueiros se constituiam em acessórios indispensáveis nas estâncias.

A criação de ovelhas fornecia a lã para o artesanato caseiro do vestuário.
O gado era numeroso nos campos abertos, com ricas pastagens naturais, mas dele apenas o couro era aproveitado em escala comercial. O resto se perdia. A carne servia apenas de alimento às famílias locais, já que não havia conhecimento de como conservá-la. A vida pastoril,
mais segura, começou aos poucos a substituir as incertezas do trabalho agrícola. O boi e o arado passaram a dar lugar ao cavalo e ao laço.
A invasão de Portugal pelas tropas francesas, em 1807, determinou que o Príncipe Regente D.João VI se transferisse para o Brasil com toda a Família Real.
Em 25 de maio de 1810, uma revolta em Buenos Aires derruba o vice-rei Baltazar Hidalgo de Cisneros e proclama a independência das províncias do Rio da Prata. O general Francisco Xavier Elio, sediado em Montevidéo, fica fiel à Metrópole e pede auxílio ao Rio de Janeiro, que estava em bons termos com a junta de Sevilha. O apelo tem a melhor acolhida, pois de um lado D.João VI desejava a Cisplatina e por outro Dona Carlota Joaquina ambicionava uma coroa para si, no Rio da Prata.
Surge assim, a campanha de 1811, com o denominado Exército Pacificador, comandado por D.Diogo de Souza, depois conde de Rio Pardo.
BONIFÁCIO JOSÉ NUNES, então com 43 anos de idade, não tomou parte nestas lutas. Mas seus filhos Pedro José Nunes e Jerônimo José Nunes integraram o esquadrão organizado no Herval, que tomou o nome de Voluntários do Rio Grande. Ainda faziam parte desta força militar Astrogildo Pereira da Costa, João da Silva Tavares, futuro visconde de Serro Alegre e Davi Francisco Pereira,ambos genros de BONIFÁCIO JOSÉ NUNES, Pedro Muniz Fagundes, Pedro Canga, Camilo dos santos Campelo,José Amaro da Silveira,Hilário Amaro da Silveira,Serafim da Silva Tavares,Reduzindo Vieira Nunes,Genuíno Dutra Fagundes, entre outros, sob o comando do major Antônio Carneiro da Fontoura, natural de Encruzilhada.
A intervenção de D. Diogo de Souza na Banda Oriental, acabou dando aos portugueses o território localizado entre os rios Quaraí e Ibicuí, até então de domínio contestado.
Bagé e Santana do Livramento foram duas cidades que tiveram origem nos acampamentos militares das tropas concentradas e arregimentadas, no início da expedição.
O conde de Rio Pardo, deixou o governo do Rio Grande do Sul em 1814, sendo substituído por Luis Teles da Silva Caminha e Menezes, Marquês do Alegrete.
A paz não durou muito tempo.
Em 1816, começou a segunda intervenção armada da monarquia portuguesa na Banda Oriental, estimulada pelos argentinos que queriam aniquilar com Artigas.
Buenos Aires desejava a incorporação do território oriental às Províncias Unidas do Rio da Prata. Artigas se opusera, preferindo os riscos de uma guerra contra os portugueses, para manter seu país livre, à certeza den entregá-lo pacificamente aos argentinos, sem perspectivas de liberdade.
Assim, D.João VI, resolve invadir o território uruguaio. E assim as lutas vão sucedendo. Assume a governança da província de São Pedro, em 1818, o conde da Figueira, José Maria Vasconcelos e Souza.
Finalmente, a 22 de janeiro de 1820, Artigas é derrotado, refugiando-se no Paraguai, onde pede asilo.
O desfecho desta campanha traz como consequência a anexação da Banda Oriental, que passa ao domínio de Portugal, com o nome de Província Cisplatina, a 18 de julho de 1821.
Em 7 de setembro de 1822, já D .Pedro decreta a separação absoluta da metrópole portuguesa.
Diz Costa Medeiros, referindo-se a este ato:" Os ervalenses, sob o domínio português, tinham obtido tudo quanto lhes era lícito desejar. Muitos ervalenses vinham com as insígnias do exército português, cobertos de glória, garbosos oficiais, receber os agradecimentos dos vizinhos, os velhos das campanhas do continente que a idade tinha privado das glórias dos que chegaram e das mulheres que não podiam marchar para a guerra."

Nunes Vieira, José Cypriano - Edifunba - 1988

André M. Gudolle e Maria Benvinda Nunes Pereira

Após a morte inesperada de Jean, André e sua mãe trabalharam por vários anos, conseguindo salvar a casa no município de Itaqui, e André firmar seu crédito comercial. " De 1869 a 1895, negociei só para salvar o crédito de meu digno pai. Daí para cá foi então que tratei de angariar bens por meio de negócio de comprar e vender mercadorias"... ( Memórias Manuscritas de André Gudolle).
Em 1875, André se estabelece em São José, 1º Distrito de São Borja, onde viveu 13 anos. Ali adquiriu campos, gados e um valor em dinheiro. Adquire também um Rincão de campos de José Floriano Machado Fagundes,o qual tinha a antiga denominação de "Rincão do Inferno".Esse Rincão fazia fundos no arroio Ibipuitã, onde nasce o mesmo arroio.
"Pelos anos de 1881, 1882, Galdino Francisco Pereira, cidadão Riograndense, veio com sua família do Município de São Gabriel residir na fazenda Santa Rita, que é situada no 1º Distrito de São Borja, que foi outrora pertencente ao Conde de Porto Alegre. Ali travei relações com sua família que era composta de sua senhora Dona Camila Nunes Pereira, suas filhas Dona Maria Benvinda, Dona Julia Malvina, Honorina, moças e duas meninas: Cecília (Sitita) e Maria Leduvina (Duda), e seus filhos Maximiano Alfredo Pereira, já moço e Galdino Eleutério Pereira, menino; de cujas relações resultou agradar-me das moças, a mais velha, com a qual casei-me na noite de 24 de maio de 1844" ( Memórias Manuscritas de André Gudolle).

Arquivo Pessoal de Marilia Gudolle C. Göttens