REGISTROS, GENEALOGIAS, HISTÓRIAS E POESIAS...
a fim de preservação da memória de nossos ancestrais
MARILIA GUDOLLE C. GÖTTENS

sábado, 29 de outubro de 2011

André Gudolle: Mais perdas e ganhos

Em 18/12/1905, falece Raul, filho natural de André Gudolle ao ver seu irmão Deuclydes ferido na boca por um tiro desfeichado por Fernando Marques, e recebendo 3 tiros do mesmo, deu-lhe 4 facadas, morrendo este e Raul. Os motivos, hoje desconhecidos, refere-se André:" Nada mais digo sobre este fato, pois sabeis todos os pormenores". (Memórias manuscritas de André Gudolle). (Dirigindo-se à seu filho Djalma).
Após o duplo homicídio, Deuclydes foi processado pelos familiares do tal Fernando Marques a fim de incriminá-lo como cúmplice de sua morte. "A ser real o crime, seria uma mancha em nossa família. Felizmente a verdade e a justiça triunfaram, não sendo nem pronunciado Deuclydes. A parte contrária em grau de apelação, sustentou a sentença de impronúncia do juiz de direito de Porto Alegre, Dr. Otávio Pila, isto em dias de abril de 1906".
No dia 17/4/1906, às 15 horas, após longa enfermidade falece o Major José Ferreira Sampaio, com 64 anos, sogro atual de André e seu grande amigo. "Filhos, meu velho amigo e sogro Sampaio, era avô materno de vocês.. De tempos em tempos, dirijam a Deus todo poderoso, uma prece em favor de sua alma; que Deus a tenha em sua divina glória. Amém Jesus".
"Não desdenhais meus prezados filhos, de vosso pai crer em Deus todo poderoso, também creiam. Deus, é o grande criador do universo, e todos os seres nele existentes. Com o seu incomensurável poder, pode tudo criar. Porque não criaria a alma imortal do homem? Criou!! É um segredo tão grandioso como grande é Ele. No entanto, os homens já penetraram nesse segredo, hoje não se ignora a imortalidade da alma." "Nada mais digo-vos sobre tão magno assunto. Deixo aos seus critérios. Mais tarde, quando tiverem 30 e mais anos, estudarão os fenômenos espíritas, porém com muito respeito e critério". (Memórias manuscritas de André Gudolle).
André, atendendo pedido de seu filho Djalma, solicita a seu amigo Duarte Joaquim da Silva, a mão de sua filha Isalina Monteiro Silva para sua esposa.( Duarte Joaquim, também é meu bisavô materno.) " Fostes bem sucedido quanto a teu pedido, pois foi aceito" (Memórias manuscritas de André Gudolle".
Djalmira também foi pedida em casamento pelo Tenente Américo Salles de Carvalho, oficial da marinha, natural de Rosário RS, onde sua família tinha fazenda de criação. O casamento de Djalmira não se realizou, ocasionado pela morte heróica de seu noivo, durante a revolta de João Cândido na esquadra.
O jovem Parmênio Palmeiro casou em 30/9/1909 em Itaqui, na casa da Senhora D. Luiza Palmeiro, com Deolmira Gudolle.
Parmênio e Deolmira

André Gudolle vende em agosto de 1909 a casa comercial denominada "Revolução" ao Senhor Lourenço Escobar. Desde então passa, a residir em Santo Izidro, interior de Itaqui, RS. (Essa casa ainda permanece em seu mesmo lugar. A conheci quando tinha mais ou menos 12 anos. Lembro-me perfeitamente dela, de seu interior, com vários móveis antigos, toda de pedras, rodeada de inúmeros pés centenários de laranjeiras. Quem levou-me até ao local juntamente com minha saudosa mãe, foi seu saudoso irmão Mario Silva Gudolle, por ocasião de encontrarmo-nos em visita à sua casa em Itaqui/RS.)
" Com a liquidação da casa comercial da "Revolução", trouxe-nos bastante prejuízos. Estes atingem a cincoenta contos mais ou menos. A casa que estabeleci em Bororé sob a firma "Deuclydes Gudolle", muito prejuízo nos tem dado, superior a vinte contos. Estou trabalhando com dinheiro a juros. Acolá que Deus me ajude a vencer as mil dificuldades por quais temos passado. Meu filho Djalma, teus lucros foram as tuas despesas pessoal e despesas para médico e botica que os paguei. Tua legítima, casa e mesada contendo em carteira a quitação; o mesmo, Dico (Deuclydes) também recebeu. Também está paga a legítima de Deulmira. Com a permuta entre vocês três, também entrou os bens remanescentes que você e Dico receberam". (Memórias manuscritas de André Gudolle".
Deuclydes Gudolle (meu avô materno), casa em 30/7/1913 em Itaqui, com Duartina Monteiro Silva (Vó Iaiá). Esta vem a ser irmã de Isalina Monteiro Silva, casada com Djalma. Portanto, dois irmãos, casados com duas irmãs. Estas eram filhas de Duarte Joaquim da Silva e Maria José Monteiro. ( A ascendência desta família, será postada mais adiante).

Arquivo Pessoal de Marilia Gudolle C. Göttens

Ainda, a trajetória de André Gudolle

Em 25 /9/1894, André retira-se com sua família da cidade de Itaqui, mesmo sem ter terminado a execranda revolução restauradora, a qual, só em 23/8/1895 é que concluiu por meio de "pazes".
Reabre sua casa comercial, a fim de reaver o perdido e lutar pela vida.
Deu sociedade na terça parte dos lucros, por dois anos, e metade dos lucros, por mais dois anos últimos, a seu empregado e amigo, Dyonísio Pereira da Silva, em remuneração dos muitos serviços que prestou-lhe durante o período revolucionário. " Peço-vos que todos vós, meus filhos, sejais amigos de meu sócio, muito honesto e honrado, e viu todos vós se criarem". ( Memórias manuscritas de André Gudolle".
Em virtude do falecimento de Maria Benvinda, em 18/12/1894, foi procedido ao inventário dos bens existentes, tocando a Djalma e Deuclydes, a casa na cidade de Itaqui, que foi herança dos pais de André, e parte em dinheiro que ficou sob a administração do mesmo.
A herança de Djalmira, Diulmira e Delminda, foi a metade do campo denominado "Rincão do Inferno", localizado no 2º distrito de Itaqui, nas pontas e costas do arroio Ibipuitã em sua margem esquerda, e também parte à direita, bem como parte em dinheiro e as jóias de Benvinda, tudo ficando também na administração de André.
Em 1897, André resolve casar com Maria Luiza Sampaio, filha de seu velho amigo José Ferreira Sampaio e Esmerilda Monteiro Sampaio. "Por achá-la muito digna, honrada e virtuosa, resolvi tomá-la por esposa, cujo enlace presenciastes (dirigindo-se aos filhos) no dia 23/7/1897, nesta casa, de que tudo consta em livro próprio, no cartório deste 2º distrito de Ytaqui." ( Memórias manuscritas de André Gudolle").
Após o casamento de André e Maria Luiza, Djalma foi estudar em Porto Alegre, no dia 13/4/1898.
Os avós maternos de Djalma, Deuclydes, Djalmira, Diulmira e Delminda, quais sejam: Galdino Francisco Pereira e Camila Nunes Vieira, faleceram; o 1º, em 27/8/1894, e a segunda, em 21/03/1897, ambos com idade já avançada.
André adquire meia légua de sesmaria de campos e matos, localizado no 2º distrito de Itaqui, lugar denominado "Santo Izidro", campo esse próprio para invernar bois. ("pretendo não vender este campo. Se assim suceder, desejo deixá-lo ao Djalma e ao Deuclydes, com a condição de não vendê~lo a não ser de um para o outro. É um campo especial, que dá para invernar 800 a 900 bois, e não ser necessário reinverná-los. É, portanto, muito próprio para engorda, negócio de muito resultado em nossa terra, ou por outra, é ainda um dos primeiros negócios em nosso Estado, invernar touros e vendê-los bois gordos, principalmente, se vender na invernada. Saladeiros, como dizem os castelhanos, é negócio muito arriscado. Aconselho-vos que prefiram fazer negócio na própria invernada." (Memórias manuscritas de André Gudolle).
"Todo o tempo que tens estado no colégio meu querido Djalma, estou aqui a comerciar nesta casa que dei o nome de "Revolução", para comemorar a revolução pacífica de 1889.
Os meus lucros não são grandes. Dá para viver com alguma abundância e para educá-lo e mais vosso irmão Deuclydes."
No ato de casar-me em 2ª núpcias, fiz uma disposição testamentária, isto antes de efetuar o matrimônio, no qual lego da minha terça, uma certa quantia a tua irmã Malvina, (filha natural de André, antes do casamento com Maria Benvinda), se ela tiver comportamento honesto. Também ao Raul, (filho natural de André, antes do casamento com Maria Benvinda), e a vocês todos com partes iguais, ao depois de retirar a quantia para tua" irmã." (Memórias manuscritas de André Gudolle).
No dia 14/7/1889, nasce Heraclides Sampaio Gudolle, filho de André e Maria Luiza Sampaio Gudolle. "Peço-vos a todos vocês, meus filhos, que o reconheçam como irmão e o tratem com amor fraternal, no que me darão muito prazer, enquanto eu viver. Vossa madrasta é atualmente minha esposa, a quem amo profundamente. A mesma esteve em perigo de vida ao nascer o vosso irmão. Felizmene Deus nos favoreceu em sua graça, depois de estarmos quase desanimados de salvá-la." (Memórias manuscritas de André Gudolle).
André, nessa época, se queixa muito a seus filhos, de Malvina (filha natural que morava junto com sua família). " Malvina não prima em respeito comigo. É de um gênio irracional, indomável, a ponto de exasperar-me. Se ela não proceder com respeito dora em diante, é muito provável que a disposição testamentária que em parte a ela aproveitava, eu a inutilize. Felizmente, até esta data (3/9/1899), ela tem se portado honestamente. Creio que nesse ponto, ela assim continuará, e se prevaricar (que Deus a livre), pior para ela." (Memórias manuscritas de André Gudolle).
Djalmira no ano de 1900, encontrava-se em companhia de seu tio Maximiliano Nunes Pereira, frequentando a escola. Dali segue para sua tia Julia Pereira Vieira, no Salso, em São Gabriel,
RS.
No dia 3/4/1901, às 3 horas da madrugada, nasce Esmerilda Sampaio Gudolle, 2ª filha de André e Maria Luiza Sampaio Gudolle. "Um susto levamos, pois foi um parto bem laborioso, de minha adorada esposa, a ponto de mandar vir médico operador; felizmente não foi necessário vir o médico, pois não chegou a sair de Itaqui. O nosso médico espiritual (note-se que André tinha crença espírita, tal qual seu filho Deuclydes) Perseverando Constâncio da Silva, fez o seguinte prognóstico que a mim disse: sua esposa D. Maria Luiza, não corre perigo na ocasião do parto; não precisa médico e terá o filho em princípios de abril e será do sexo feminino. O resultado, graças a Deus todo poderoso, foi matematicamente exato." " Eu já creio que por invocação do espírito, se faça excelentes curativos. Meu filho Heraclides, foi curado com muitas receitas espíritas; o mesmo Diulmira e Maria Benvinda, em certas ocasiões". (Memórias manuscritas de André Gudolle).
No dia 3/4/1905, falece Maria Luiza Sampaio Gudolle, 2ª esposa de André. " Eis que a fatalidade novamente surge em meu lar, arrebatando em suas negras garras, a vida preciosa de minha 2ª esposa, que também idolatrava. Ficaram vocês filhos queridos novamente órfãos da 2ª mãe. É ou não fatalidade, mais este sucessivo lutuoso? Isto são golpes que esmagam um coração que só palpitava de amor por esse ser tão delicado que era o encanto de minha velhice, e que se sacrificou amar-me, numa idade em que a juventude parece que não se poderá unir com tanto amor a um ser já um tanto adiantado em anos. Eu, meus filhos queridos enviuvei aos 53 anos; tomo isto como expiação de faltas que as cometi, do que não as tenho consciência. Deus, em seus decretos. que se amenize de nós. Só desejo educá-los, criar os menores e vê-los todos colocados; assim completo minha missão na terra. Deus saberá o que deve fazer a respeito de meus sofrimentos.." " Recomendo a todos os meus filhos: honradez, probidade, caridade. Suas irmãs deverão ser do vosso maior cuidado, zelando a sua honra, e tudo o mais que for em benefício delas." (Memórias Manuscritas de André Gudolle"

Arquivo Pessoal de Marilia Gudolle C. Göttens

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Ancestrais de Deuclydes, Djalma, Delminda, Djalmira e Diulmira Gudolle

(1850) PAIS
6g. (5i+5j) André Gudolle (Itaqui, *1859-1929) e 6h. (5l+5m) Benvinda Nunes Pereira (RS, *1863)

(1820) AVÓS
5i. (4e) Jean Gudolle (Lescurrie, França, *1824) e 5j. (4f+4g) Virgínia de Vargas Martinez (RS, *1831)

5l. (4h+4i) Galdino Francisco Nunes Pereira (Herval, RS *1835) e 5m. (4j+4l) Camila Nunes Vieira (Herval, RS *1883) (primos irmãos), ver abaixo.

(1790) BISAVÓS
4e. Guillaume Gudolle (Lescurrie, França, *1799)
4f. Andrés Martinez (Espanha, *1791) e 4g. Flaubiana de Vargas (Rio Pardo RS *1796)

4h. (3b+3c). David Francisco Pereira (Herval, RS *1805 - Batalha do Seival 10 de setembro de 1836, em 1828 escreveu o ABC da batalha do Passo do Rosário, contra a Argentina) e 4i (3d+3e) Cecília
Assumpção Vieira Nunes (Herval, RS *28/7/1805)
4j. (3f+3g) Jose Caetano Alves Vieira (Herval, RS *1806) e 4l. (3d+3e) Ludovina Maria Vieira Nunes (Herval, RS *28/9/1806)

(1760) TRISAVÓS
3b. (2a+2b) Francisco Pereira Machado (Herval, RS *1755) e (2i+2j) 3c. Juliana Rosa de Jesus (RS, *1775)
3d. ( 2c+2d) Bonifácio José (de Quadros) Nunes (Rio Pardo, RS *21/8/1769 + Herval, RS 14/11/1863) e e 3e. (2e+2f) Gertrudes Bernarda de Assumpção ( Santo Ant. da Patrulha RS, *6/10/1777, +Pelotas RS, 22/02/1865)
3f. (2g+2h) José Caetano Vieira (Rio de Janeiro, Freguesia de São José, *1770) e 3g (2i+2j). Maria Eugênia dos Prazeres Martins ( Freguesia N.S. da Conceição do Estreito, RS, *1755)

(1730) TATARAVÓS
2a. Sebastião Pereira de Morais (Açores, *1740) e 2b Isabel de Jesus (*Machado) ( Açores,*1740) (casal açoriano, com terras na freguesia do Estreito, recebidas em 1774)
2c (1a+1b). Antônio Nunes (Curvello) ( Ilha Terceira, Açores, *1739) e 2d. (1c+1d ) Ana Maria do Nascimento) ( de Ávila Silveira de Quadros) ( casal açoriano como meeiro nas terras do Rincão de Cristóvão Pereira, na Freguesia de Mostardas RS, em 1779)
2e. (1e+1f) José Francisco Vieira (Barroso) (Ilha de São Jorge, Açores, *1747) e 2f. (1g+1h) Ana Rosa Joaquina (Machado de Siqueira) (Ilha de São Jorge, Açores, *1747) ( casal açoriano com terras na Freguesia de Santo Antônio da Patrulha, RS)
2g. Francisco Caetano Vieira (natural de Santana do Parnaíba, SP, batizado na Freguesia de São José, Rio de Janeiro, *1740) e 2h. Rosa Joaquina de Jesus (Freguesia da Enseada do Brito, SC, *1745) (dos primeiros moradores na região do Herval RS, em 1770).
2i. Manoel Joaquim Martins de Carvalho( Rio de Janeiro, *1740) e 2j. Maria Inácia de Jesus ( Rio Grande, RS *1740), (nascida logo depois da fundação da Vila do Rio Grande, em 1737). Dos primeiros moradores na região do Herval RS, em 1770)
2l. 1i+1j) Antônio José de Vargas (*1720, Açores) e 2m ( 1l+1m) Maria Josefa Machado ( *1724, Ilha Terceira, Açores) ( casal açoriano com terras na Freguesia de Santo Amaro RS)

(1700) QUINTO-AVÓS
1a. Antônio Nunes Curvello ( Ilha Terceira, Açores, *1709) e 1b. Maria da Conceição
1c. João Silveira de Quadros ( Ilha de São Jorge, Açores, *1709n) e 1d. Maria de Ávila
1e. Antônio Teixeira Barroso ( Ilha de São Jorge, Freguesia de N.S. do Rosário, Açores, * 1717) e 1.f Maria Vieira Machado.
1g. Amaro Cardoso de Siqueira ( ilha de São Jorge, Freguesia de N.S. das Neves. Açores, *1717) e 1h. Maria Vieira Machado
1j. Domingo Dutra (*1690, Freguesia de São Miguel, Ilha do Faial, Açores) e 1j Francisca de Vargas (*1695, Freguesia de São Miguel, Ilha do Faial, Açores)
1l. Manoel Machado Neto (*1694, Ilha Terceira) e 1m. Maria das Candeias ( *1699, Ilha Terceira, Açores)

Arquivo Pessoal de FCG e Marilia Gudolle C. Göttens

A Voz da Estância - Deuclydes Gudolle

A saudade faz tudo recordar, noite, luar...
O gado a ruminar deitado na porteira do curral,
Um touro berra ao longe em desafio
Um bagual junto a relinchar bravio,
Porque o relincho sentiu de outro bagual...

Tudo isso o gaúcho está a escutar,
A voz da estância, a noite, o luar...
Sente o quero-quero que desperta,
O gaúcho sabe, quero-quero não mente
Ele tem o pouso certo alí na frente
E é da estância, o sentinela alerta...

E houve-se o rumor de alguém passando
É um peão que do bochincho vem voltando
E quer chegar cedo ao galpão...
Na manhã estão todos na estância de rodeio,
E não quer que digam que na tala veio
E que não pode tomar um chimarrão...

Tudo isso o gaúcho escutou,
Também tarde chegou, tarde dormiu,
Aos poucos, a voz da estância emudeceu
E o luar, qual um lençol encantador,
Sobre todo o campo se estendeu...

Madrugada, o galo no terreiro canta,
A aurora no horizonte se levanta
Acordando o dia de seu sono de luz..
E a luz, na sua eterna claridade,
Ilumina o mundo, a imensidade
Dando sombra e vida que conduz...

E o gaúcho acorda alegre e satisfeito,
Vai ao galpão, e o mate já está feito
E ainda bufa no palanque um redomão...

Esta vida de estância, jamais cansa
E sempre revive uma lembrança
Na saudade de um velho coração.

Uma Fortaleza "Bela União"

"Voltava ao seio maternal da terra que eu amava. Bela União era uma fazenda e uma Fortaleza. Construída toda de pedra, tinha, nas paredes externas, a espessura de 80 centímetros, e, em cada canto de oitão, um alvéolo secreto para colocar a arma de guerra, em caso de assalto. Dezenove amplas salas davam ao velho solar a atmosfera de grandeza, naquelas solitudes em que o conforto era palavra ausente dos raros dicionários. No centro, fechado, um pátio árabe, que separava o solar em dois blocos e, na frente, um muro, onde se erguiam lanças altas e pontiagudas que não permitiam a escalada do homem mais audaz.
Fôra construída por ANDRÉ GUDOLLE, filho de um francês. Herança, portanto, de um espírito requintado, em meio bárbaro, onde poucas construções escapavam dos ranchões de paredes de barro batido e teto de capim Santa-fé. Quando muito, paredes de tijolos ,teto baixo e beiras pendentes, por onde se derramava a água das chuvas."

Texto do Livro "Terra Xucra", de Manoelito De Ornelas, Ed. Sulina , 1968, ao retornar à sua terra de Itaquí/RS.

sábado, 24 de setembro de 2011

Cuentos da Tia Avó Dija (Djalmira Gudolle)

A Vó Dija contava uma história sobre os dois filhos naturais de André Gudolle: " Quando ele casou com a Maria Benvinda, escondeu os dois filhos naturais num rancho no fundo do campo, sem coragem de falar deles para sua noiva. Após o casamento, Benvinda foi residir na estância. Um dia ele saiu, e após voltar, encontrou Benvinda com os dois filhos naturais na porta da casa, esperando-o. Alarmado, perguntou: Quem são estas crianças, Benvinda? E ela respondeu: São nossos filhos". E encerrou-se a questão." " Se non é vero è bene trovato".

Arquivo pessoal de Marilia Gudolle C. Göttens e FCG

terça-feira, 20 de setembro de 2011

André Martins (Martinez) Gudolle e Maria Benvinda Nunes Pereira












Do matrimônio de André e Maria Benvinda, houveram 5 filhos: 1. Djalma Pereira Gudolle, nasceu em 16/6/1885, no lugar denominado São José, outrora 1º distrito de São Borja. Teve como padrinhos seus avós maternos e sua tia Dª Julia Malvina Pereira. 2. Deuclydes Pereira Gudolle, (Dico), nasceu em 5/1/1888, no mesmo lugar de Djalma. Teve por padrinhos sua avó materna Virgínia Martins Gudolle e Leôncio Pereira da Silva.
No ano de 1888, André monta um estabelecimento comercial em São Canuto, 2º distrito de Itaqui e, em 1889 muda-se com sua família para esse local. Ali nasce seu 3º filho 3. Djalmira Pereira Gudolle, em 23/7/1889.
No ano seguinte, 1890, muda-se novamente, mas para local próximo, que passa a chamar de "Revolução", para comemorar a revolução pacífica que se operava no Brasil. "Longe estava de pensar que em nosso país houvessem revoluções sanguinolentas. Enganei-me. Veio uma tremenda da qual darei notícias mais adiante". (Memórias Manuscritas de André Gudolle).
"Em 29 de junho de 1891, é uma data lutuosa em nossa família. Perdi minha extremosa mãe. Acha-se sepultada no cemitério de Santo Cristo. Tem catacumba com a inscrição em pedra mármore. Faleceu com 60 a 62 anos. Conheceu os meus três filhos mais velhos, por quem estremecia". (Memórias Manuscritas de André Gudolle).


O quarto filho de André e Maria Benvinda nasceu em 9/5/1892 e chamava-se 4. Deolmira Pereira Gudolle. Teve por padrinhos, seus tios Afonso Nunes Vieira e Dª Julia Nunes Vieira.
" Vivi com minha idolatrada esposa, nove anos na campanha. Éramos muito felizes, muito nos amáva-mos. Era digna pelas suas virtudes, seus dotes físicos e morais.
Com a guerra que convulsionou o Rio Grande, que foi calamitosa para todos os seus filhos, tivemos que emigrar para a cidade de Itaqui, lugar que dava mais garantias por estar ocupada por forças governistas. Aqui tivemos o resto do ano de 1893 e todo o ano de 1894, a fim de reaver o perdido e lutar pela vida, reabrindo nosso estabelecimento comercial. Antes de nos retirar-mos para Itaqui, fomos saqueados na nossa casa comercial no dia 30 de setembro de 1893, pelas forças revolucionárias comandadas por Gomercindo Saraiva e Coronel Salgado. Houveram mais três saques de pequenos grupos revolucionários.
Entre mercadorias e gados animais, os nossos prejuízos atingiram a mais de trinta contos, não contando despesas, o tempo perdido e dívidas comerciais. Foi, portanto, calamitosa para nós, a execranda revolta. A história melhor vos informará dos morticínios medonhos praticados nessa revolução". (Memórias Manuscritas de André Gudolle).

Deolmira (Mimira), Delminda Benvinda (Vindinha), e
Djalmira (Dija), possivelmente em fins dos anos 30, em
Itaqui na estância Santa Clara, de Parmênio Palmeiro,
marido de Deolmira.


"Aproxima-se a época para mim, e todos vós meus queridos filhos, de mais desgostos, com quanto todos vós sejam pequenos, não podeis avaliar. No entanto, no dia 18 de dezembro de 1894, na cidade de Itaqui, perdestes vossa extremosa e carinhosa mãe, minha virtuosa esposa. Foi uma fatalidade para todos nós. Que perda irreparável meus queridos filhos, todos vós em tenra idade. Que golpe profundo a mão fatal do destino desferiu sobre nossa família.
Vós, meu querido Djalma, ficastes órfão aos 9 anos, meu Dico aos 7 anos, minha Djalmira aos 2 anos e meio, e a última, que nasceu no dia 13 de setembro de 1894, que dá pelo nome de 5. Delminda Pereira Gudolle, ficou órfão com 3 meses e cinco dias. Que injustiça da sorte. Seja feita a vontade de nosso Deus, que tudo pode. Lamento mais por todos vós, que não mereciam tão cedo, sorte tão cruel; o desaparecimento daquela que lhes deu o ser e que era tão extremosa e dedicada para mim.
Ao relatar-vos este acontecimento, que já lá vai para mais de dois anos, sangra-me o coração, cem anos que vivesse; idolatrarei a memória de quem foi vossa mãe, de quem foi minha esposa". (Memórias Manuscritas de André Gudolle).

Arquivo Pessoal de Marilia Gudolle C. Göttens